Quem não se lembra
daqueles bons tempos em que os alunos gozavam
três meses de férias por ano? Geralmente
ficavam ansiosos pela chegada do julho para poderem
descansar. Alguns viajavam, outros ficavam em
casa. De qualquer maneira eram 30 dias de interrupção
ao processo escolar. Mas não parava por
aí: do dia 30 de novembro a 5 de fevereiro
é que contava mesmo. Eram mais de dois
meses de férias. Por fim, os meninos sentiam
saudades da escola. Tinham tempo para extravasar
o lúdico, a imaginação, os
projetos da brincadeira. Soltavam papagaios, brincavam
de bicicleta, passavam o dia inteiro dentro de
uma piscina, assistiam desenhos animados, andavam
de carrinho de rolimãs, etc. Voltavam em
fevereiro completamente abastecidos e descansados
para uma nova jornada até as próximas
férias.
Até que um dia, alguns “teóricos”
brasileiros, que estão em sua maioria fora
da escola e geralmente não tem filhos pequenos,
elaboraram sugestões que foram enviadas
a uma comissão do MEC, que tinha a missão
de formular a nova Lei de Diretrizes e Bases.
Essa lei foi votada pelo Congresso Nacional e
sancionada pelo presidente da república.
Entrava em vigor, aos 20 de dezembro de 1996 a
Lei 9394/96 que obriga as escolas a condicionarem
o seu calendário para 200 dias letivos
e uma carga horária mínima de 800
horas. Estava decretado o fim das férias
prolongadas. Estava decretada a maior permanência
dos alunos em um modelo insuportável e
pré-histórico de escola, que ainda
segue paradigma de séculos atrás,
muito ligado à idéia de presídio,
fábrica, ou outra coisa que cerceia a liberdade,
a imaginação, o prazer, o lúdico.
O pior de tudo é que até as crianças
que antigamente entravam na escola com 7 anos,
não escaparam. Agora, a partir dos três
anos, precisam “cumprir cartão”
também.
O que está por detrás desses interesses?
Alguns afirmam que essas medidas visam a tirar
meninos da rua, pois o quadro sócio-econômico
do país mudou, o que forçou as mães
a saírem para o mercado. Essa situação
proporcionou um contexto de êxodo das crianças
para a rua. Outros dizem que tais medidas visam
a alinhavar o modelo brasileiro ao modelo mundial,
pós-liberal. Outros justificam tais mudanças
usando de vários outros argumentos. Entretanto,
embora muitos educadores e especialistas na área
da saúde mental tenham prevenido e alertado
para o grande problema que poderemos criar para
o futuro, visto que as crianças estão
ficando sobrecarregadas, antecipando a maturação
e o senso de responsabilidade, diminuindo ao máximo
o tempo para as atividades recreativas de livre
iniciativa, o que poderá gerar adultos
insatisfeitos, depressivos, neuróticos,
frios, revoltados, sem esperança, nossos
políticos preferem atender a outros reclames
sociais. Se um dos grandes problemas argumentados
a favor de aumentar de 180 para 200, e agora 204
dias letivos (algumas tentativas de escolas integrais
estão sendo feitas) era a questão
de crianças nas ruas, por que criar uma
lei para atender a essa situação
e forçá-la a todas as crianças,
como se todas elas fossem crianças expostas
ao mesmo problema?
Todos nós sabemos que a infância
precisa ser aproveitada ao máximo. Ao chegarem
na fase adulta todas as crianças deveriam
dizer: aproveitei ao máximo minha infância.
Adulto que não teve infância é
cheio de esquisitices. Já está mais
que provado por várias pesquisas que nós
aprendemos melhor quando há prazer. Por
que trancafiar tais infantes na escola durante
toda a sua infância? O pior de tudo é
que para a nossa vergonha as estatísticas
estão aí: quem é que disse
que aumentar o tempo do aluno na escola, mormente
crianças, está aumentando a qualidade
de ensino e de aprendizagem. Nunca se falou em
toda a história da educação
brasileira que alunos chegaram ao II grau (Ensino
Médio) sem dominar a escrita e a leitura.
Será que esses “teóricos”
da sala com ar condicionado e confortáveis
tapetes, que talvez nunca tenham colocado os seus
pés numa escola, não estão
vendo isso?
Ainda que a escola proporcione tempo e espaço
para recreação, não é
a mesma coisa que a recreação lá
de fora, da casa, do grupo, da rua, do clube.
A da escola é conduzida, programada. A
idéia de prisão continua subjacente
aí. O lúdico lá de fora é
espontâneo, às vezes individual,
às vezes grupal. É selecionado pelo
sujeito que tem controle do tempo e do espaço
onde quer desenvolver seu projeto pessoal de brincadeira.
Infância é igual casamento. Casamos
com aquela pessoa que não conseguimos imaginar
o que seria de nós sem a companhia dela.
Infância tem que ser assim. Tem que abastecer,
encher, extravasar. As pessoas precisam olhar
para trás e dizer: eu aproveitei ao máximo,
tive infância. Com muito mais probabilidade
serão adultos melhores, mais bem resolvidos,
mais felizes.
Lício Lucioano
Nonato
Diretor do Instituto Presbiteriano Gammon Guanhães
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